Conhecendo o Rio São Francisco

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  • Publicado em: Notícias
  • Autor: ADPM

Rio São FranciscoConheci o Rio São Francisco onde visitamos uma fazenda de criação de gado da raça Guzerá.

Numa manhã de sol claro fomos em caminhada pela margem daquele belo rio, guiados pelo Sr. Raimundo, que nasceu neste chão, e tem pedra e água, e bichos e vegetação nos olhos e na alma.

Andamos e andamos, e são águas, muitas águas a paisagem que vemos: a mata ciliar costeando o rio, descendo desgraciosa, tirando graça de sua própria falta de graça.

Vemos as curvas de longe em longe, depois mais e mais de perto, até aportarmos naquele mar, doce mar doce.

Seu Raimundo nos contou uma lenda do Rio sobre uma Sereia: Iara (do tupi y-îara "senhora das águas") ou Mãe-dágua. Não se sabe se ela é morena, loira ou ruiva, mas tem olhos verdes e costuma banhar-se nos rios, cantando uma melodia irresistível. Os homens que a vêem não conseguem resistir a seus desejos e pulam nas águas e ela então os leva para o fundo; quase nunca voltam vivos. Os que voltam ficam loucos e apenas uma benzedeira ou algum ritual realizado por um pajé consegue curá-los. Os índios têm tanto medo da Iara que procuram evitar os lagos ao entardecer.

A história conta que Iara antes de ser sereia era uma índia guerreira, a melhor de sua tribo. Seus irmãos ficaram com inveja de Iara pois ela só recebia elogios de seu pai que era pajé, e um dia eles resolveram tentar matá-la. De noite quando Iara estava dormindo seus irmãos entraram em sua cabana só que como Iara tinha a audição aguçada os ouviu e teve que matá-los para se defender e, com medo de seu pai, fugiu. Seu pai propôs uma busca implacável por Iara. E conseguiram pegá-la, como punição Iara foi jogada bem no encontro do rio Negro e Solimões, os peixes a trouxeram a superfície e de noite a lua cheia a transformou em uma linda sereia, de longos cabelos e olhos verdes.

Passo a observar a natureza. Vejo um casal de gaviões-carcará, soberbos, majestosos, enormes, dominando uma elevação das árvores do serrado da mata ciliar. Dominando este horizonte, que lhes pertence. É o tempo do acasalamento, e veremos vários casais no caminho, reinando grandiosos, imponentes. São belos. Têm uma beleza que impressiona, impõe respeito, uma espécie de veneração, quase sagrada.

O verde das árvores, que se vêem aqui e acolá, além e além mais, nos capões esparsos entre os morros e planos. E o verde dos coqueiros e das palmeiras de buriti. O grito verde das maritacas. Os ninhos secos de guaxo, dependurados num só coqueiro, ao vento, oito, dez, doze ninhos esvoaçantes. Uma montoeira de capim e pêlos de animais, balançando-se no ar, num desequilíbrio que desafia o perigo e permanece. E o vôo negro e vermelho dos guaxos a protegê-los. Os guaxos também são de uma beleza inaudita, no seu vôo furioso, protetor.

Dependurado de uma árvore à beira do rio, bem maior, um ninho de graveteiro. O nome já diz, graveteiro. Faz o ninho, não de capim, com a aparência de ordem dos outros ninhos, mas de gravetos. Um emaranhado de gravetos, pedaços irregulares de pau, intrincados, numa desordem calculada, que lhe dá estabilidade. Um diferencial: o ninho é a sua casa. Os pássaros fazem ninhos para pôr os ovos, e chocá-los, certo. O graveteiro faz o ninho para morar. Semelhante a ele apenas o joão-de-barro, que também faz a sua casa para morar.

Não vimos nenhum lobo-guará, que não é raro. Mas vimos um tamanduá. Calmo, sossegado, cruzou a frente da caminhonete. Indiferente ao perigo, como se não tivesse nenhum medo, como se nos ignorasse. Ligeiro, porém. Sumiu-se, rápido. Tamanduá-bandeira, grande, os braços pensos, quase arrastando-se no chão. Mais um senhor deste sertão.

O Rio São Francisco de seu filete inicial de água que se encontram, vêm formar um riacho, que se vem, deslizando entre as pedras entre a vegetação do cerrado, um olho d’água borbulhando, com seu exército de girinos à flor nadando, fazendo evoluções. Longe ele nasceu. Aqui é enorme, descomunal, tem aqui o seu berço privilegiado, não sabendo ainda quão poderoso será.

Um detalhe. Que siga o seu destino natural como o destino das árvores, que muitas vezes são mortas pelo homem. Não matemos o rio. Transposição? Que o rio siga o seu curso natural, prodigalizando o dom da vida por onde passa. Salve, São Chico.

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Escrito por: Isabel

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